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Canella articulou mudança na lei para colocar Amim no comando da Polícia Civil, aponta PF

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16 de Outubro de 2026 às 06:00
6 min de leitura
Canella articulou mudança na lei para colocar Amim no comando da Polícia Civil, aponta PF

Márcio Canella e Marcus Amim Reprodução Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito com a segunda maior votação do Rio de Janeiro, articulou uma mudança na legislação estadual para viabilizar a nomeação do delegado Marcus Vinicius Amim Fernandes para o comando da Polícia Civil, segundo a Polícia Federal (PF). A afirmação consta da representação policial que embasou a oitava fase da Operação Unha e Carne, deflagrada nesta quinta-feira (15). Canella e Amim foram presos por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da investigação sobre uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis para lavar dinheiro. Segundo os investigadores, Canella foi responsável por articular a indicação de Amim primeiro para a presidência do Departamento Estadual de Trânsito do Rio de Janeiro (Detran-RJ) e, posteriormente, para a Secretaria Estadual de Polícia Civil. Para viabilizar a segunda nomeação, o deputado teria atuado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para flexibilizar os requisitos de tempo de carreira exigidos para ocupar o cargo. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Márcio Canella e Marcus Amim são presos pela PF Na representação, a PF afirma que Canella "foi o responsável direto por capitanear a indicação de Marcos Amim para a presidência do Detran e para a Secretaria de Polícia Civil, uma vez que articulou manobra legislativa na Alerj para flexibilizar os requisitos temporais do cargo". Na avaliação dos investigadores, a influência sobre as nomeações fazia parte da atuação de Canella como "patrono político e articulador de alto escalão" de uma organização criminosa suspeita de movimentar bilhões de reais por meio de uma rede de postos de combustíveis. As defesas de Canella e Amim informaram que não vão se pronunciar até terem acesso aos autos. Mudança na lei abriu caminho para nomeação A alteração legislativa ocorreu em 2023, quando Amim deixou a presidência do Detran-RJ para assumir a Secretaria Estadual de Polícia Civil. A mudança na Lei Orgânica da corporação flexibilizou os critérios para a escolha do secretário. Na época, Amim tinha 21 anos de atuação na Polícia Civil, mas 12 anos como delegado. A legislação anterior exigia um período mínimo de carreira no cargo de delegado, requisito que ele ainda não havia cumprido. Com a mudança, passou a ser possível considerar o tempo total de serviço na instituição. Segundo a PF, Canella articulou a alteração na Alerj para permitir a nomeação do delegado. A investigação cruzou a cronologia da mudança legislativa com as indicações para os cargos de comando do Detran-RJ e da Polícia Civil. A Procuradoria-Geral da República (PGR) também apontou a atuação política de Canella para viabilizar a nomeação. Em parecer no inquérito, o órgão afirmou que ele capitaneou a indicação de Amim para os dois cargos, articulando alteração legislativa na Assembleia Legislativa. Na decisão que autorizou as prisões, Alexandre de Moraes também mencionou a articulação política e a mudança na Lei Orgânica entre os elementos considerados na análise das medidas cautelares. À esquerda, o deputado Márcio Canella (União) coloca a Medalha Tiradentes no delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil do RJ, em 2018 Reprodução/TV Alerj Influência sobre órgãos públicos A investigação sustenta que a ocupação de cargos estratégicos fazia parte de uma estrutura de proteção institucional ao grupo investigado. Segundo a PF, enquanto operadores econômicos administravam a rede de postos de combustíveis, a articulação política e a atuação de agentes públicos permitiam manter os negócios e reduzir o risco de fiscalizações e investigações. Ao descrever o papel atribuído a Canella, a representação menciona a capacidade de promover a "captura de instituições públicas (...) mediante alteração da própria Lei Orgânica da instituição". Amim é apontado pelos investigadores como responsável por garantir proteção policial às atividades do grupo. Além da passagem pela presidência do Detran-RJ e pela Secretaria de Polícia Civil, ele é suspeito de manter vínculos econômicos ocultos com integrantes da organização. A PF também investiga pagamentos feitos à empresa MAMIM Consultoria, ligada ao delegado e à mulher dele. Segundo a apuração, a empresa recebeu R$ 1,821 milhão da ADM Oil Prestadora de Serviços para Postos, em parcelas mensais de R$ 70 mil, entre abril de 2024 e maio de 2026. Os investigadores consideram que o contrato de consultoria seria fictício e teria sido utilizado para disfarçar pagamentos por proteção institucional. Contratos e repasses investigados A apuração também identificou suspeitas de favorecimento em contratos públicos durante a passagem de Amim pelo Detran-RJ. Segundo a PF, a autarquia contratou, por dispensa de licitação considerada indevida pelos investigadores, a empresa Opção Ativa, responsável por serviços de reboque. A empresa pertence a Felipe Correia da Cruz, irmão de Hugo Corrêa da Cruz, conhecido como Hugo Canelão, apontado pela investigação como afilhado político e preposto de Canella. Os investigadores suspeitam que a contratação favorecida tenha beneficiado a organização criminosa. A hipótese integra o conjunto de apurações sobre a relação entre agentes públicos, operadores econômicos e empresas ligadas à rede de postos. O ex-deputado estadual e ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, durante sessão na Alerj Divulgação A PF também identificou anotações e planilhas de contabilidade informal apreendidas durante as buscas que, segundo os investigadores, registrariam repasses financeiros originados dos postos e destinados a pessoas ligadas ao grupo. Investigação apura lavagem de R$ 7,6 bilhões A Operação Unha e Carne investiga uma organização criminosa suspeita de movimentar mais de R$ 7,6 bilhões entre maio de 2020 e março de 2026, segundo relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A oitava fase da operação, deflagrada nesta quinta-feira (15), cumpriu seis mandados de prisão e 16 de busca e apreensão. Além de Canella e Amim, foram presos quatro policiais civis. A Justiça também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas investigadas, a maioria ligada ao setor de combustíveis. Segundo a PF, os investigados poderão responder, conforme a participação atribuída a cada um, por crimes como organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel.
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