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Médica, sim! Aprovada de primeira na Unicamp, jovem celebra apoio da mãe para vencer pressão religiosa

G1
17 de Outubro de 2026 às 08:00
8 min de leitura
Médica, sim! Aprovada de primeira na Unicamp, jovem celebra apoio da mãe para vencer pressão religiosa

Jovem que passou 'de primeira' na Unicamp celebra ajuda da mãe em meio à pressão religiosa Aos 18 anos, Kelly Cristina Almeida Souza foi aprovada em medicina na Unicamp direto do terceirão, após apenas um ano de preparação. Estudante de escola pública, ela não tinha dinheiro para pagar um cursinho e recorreu a videoaulas gratuitas, provas antigas e à ajuda de professores. Hoje, aos 23 anos, ela se prepara para colar grau em novembro. A decisão de tentar medicina contrariava as expectativas de parte da família, muito religiosa, que esperava que ela se casasse em vez de priorizar os estudos. Quem apostou no futuro da jovem foi a mãe, que chegou a ir até a padaria onde a filha trabalhava para comunicar que ela deixaria o emprego e se dedicaria à preparação para o vestibular. Aos 16 anos, Kelly trabalhava no caixa do estabelecimento para juntar dinheiro e comprar um computador. Com o apoio da mãe, deixou o emprego e passou a conciliar a rotina de estudos com os cuidados dos três irmãos mais novos e as tarefas de casa. 📲 Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp Durante o terceiro ano do ensino médio, em 2020, ela organizou sozinha um cronograma de estudos e chegou a dedicar cerca de oito horas por dia à preparação. A aprovação veio em 2021, na primeira chamada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Experiência no Enem mudou os planos Kelly na padaria em que trabalhava antes de prestar o vestibular. Arquivo pessoal A medicina não era um sonho definido desde a infância. A possibilidade começou a ganhar força no segundo ano do ensino médio, quando Kelly fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pela primeira vez, inicialmente para testar os próprios conhecimentos e conhecer o formato da prova. Na época, uma professora de língua portuguesa da escola incentivou a estudante a participar do exame. A experiência acabou trazendo um resultado que ela não esperava: Kelly tirou 920 pontos na redação. O resultado chamou a atenção da professora, que passou a incentivá-la a considerar a medicina como uma possibilidade real. Até então, a jovem ainda não tinha uma preparação específica para disputar vaga em um curso tão concorrido. A escolha também tinha uma motivação concreta: melhorar as condições financeiras da família. A mãe, técnica de enfermagem aposentada, sustentava a casa com cerca de um salário mínimo. “Eu entrei no curso pensando em mudar a situação financeira da minha família mesmo. Minha mãe é técnica de enfermagem, só que ela era aposentada e ganhava um salário mínimo. Nós somos em quatro crianças lá em casa, então era uma situação financeira muito difícil ”, contou. Sem dinheiro para cursinho, ela montou o próprio método Kelly no dia em prestou o Enem. Arquivo pessoal Kelly cursou o ensino médio na Escola Técnica Estadual (Etec) de Botujuru, em uma trajetória escolar inteiramente ligada à rede pública. Sem condições de pagar por um cursinho, precisou descobrir quais conteúdos estudar, como distribuir as disciplinas ao longo da semana e de que maneira avaliar se estava evoluindo. A principal ferramenta foi a internet. Ela recorria a videoaulas gratuitas no YouTube e aproveitava aulas de cursinhos que disponibilizaram parte do conteúdo gratuitamente durante a pandemia. Também pesquisava os assuntos mais cobrados nos vestibulares e usava provas de anos anteriores para entender o estilo das questões. Em vez de estudar sem um planejamento, Kelly organizou uma rotina própria. A meta era avançar em cerca de três tópicos por dia, distribuindo os conteúdos de acordo com o cronograma que havia montado. A manhã era dedicada principalmente às revisões e à resolução de exercícios. À tarde, ela estudava conteúdos novos. Ao longo do processo, as provas antigas também passaram a ter uma função importante: além de testar o conhecimento, ajudavam a identificar os assuntos que ainda precisavam de mais atenção. De segunda a sexta-feira, a rotina chegava a aproximadamente oito horas de estudo por dia. Aos sábados focava em fazer simulados ou resolver provas anteriores para treinar o ritmo exigido pelo vestibular. O domingo, por sua vez, era reservado ao descanso. Segundo a jovem, a organização foi importante porque ela não tinha a rotina de uma estudante que podia passar o dia inteiro dedicada exclusivamente aos livros. Em casa, também ajudava nas tarefas domésticas e cuidava dos três irmãos mais novos. Apoio da mãe À direita, Kelly ao lado da mãe, após ser aprovada em Medicina na Unicamp, em 2021. À esquerda, a estudante em ensaio fotográfico para a formatura, em 2026. Arquivo Pessoal Aos 16 anos, Kelly começou a trabalhar no caixa de uma padaria para juntar dinheiro e comprar um computador. Quando decidiu se dedicar ao vestibular, precisou deixar o emprego. Foi a mãe quem tomou a iniciativa de ir até o estabelecimento para comunicar que a filha não continuaria trabalhando. “Ela falou: ‘Não, ela não vai trabalhar aqui não, ela vai estudar pra ser médica’”, relembrou Kelly. O apoio foi importante também diante das expectativas de parte da família. Segundo a jovem, por serem muito religiosos, alguns parentes esperavam que as mulheres priorizassem o casamento, e não os estudos. A mãe, embora também religiosa, apoiou a decisão da filha de investir na formação acadêmica. “Minha família realmente é muito religiosa e tinha essa expectativa sobre as mulheres da família, de se casarem, de não estudar. Não era uma coisa que se esperava de uma mulher. Mas minha mãe, especificamente, sempre me ajudou muito", contou. Ansiedade e uma visita à Unicamp antes da prova Kelly durante sua primeira visita à Unicamp, antes de prestar o vestibular. Arquivo pessoal Mesmo com o cronograma organizado, Kelly enfrentou momentos de ansiedade e insegurança. Segundo a jovem, os resultados dos simulados ficavam abaixo das notas de corte, o que provocava frustração e fazia a jovem duvidar de que conseguiria a aprovação. “Tinha muita ansiedade envolvida no processo, incerteza, né? Eu não comecei a minha preparação atingindo as notas de corte, muito pelo contrário, eu fazia muito abaixo. Então tinha um quê de frustração também”, relatou. Para lidar com a pressão, ela passou a praticar yoga e meditação durante a pandemia. Por volta das 9h, interrompia os estudos para fazer os exercícios, sempre no mesmo horário, e mantinha os domingos livres para descansar. “Foi uma coisa fundamental para eu manter o mínimo de calma que eu consegui”, disse. A tensão aumentou na semana anterior à primeira fase da Unicamp, quando Kelly teve uma crise de ansiedade e duvidou que conseguiria passar. Para ajudá-la a recuperar a confiança, a mãe a levou para conhecer o campus da universidade pela primeira vez. Aprovação veio na primeira chamada A Unicamp era a principal escolha de Kelly. Ela também prestou vestibulares da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), chegou à segunda fase de ambas, mas não concluiu essas etapas porque o resultado da Unicamp saiu primeiro. Em 2021, aos 18 anos, foi aprovada em Medicina na primeira chamada, na 371ª posição. Kelly ingressou por uma modalidade de reserva de vagas destinada a estudantes de escola pública e candidatos autodeclarados pardos. A jovem registrou em vídeo o momento em que contou à mãe sobre a conquista. Ela esperou a mãe chegar em casa para revelar a notícia. “Eu esperei ela [mãe] chegar em casa, aí quando ela chegou eu falei assim: 'Adivinha quem passou em medicina na Unicamp?!'. Ela ficou desacreditada, aí já começou a ligar para todo mundo que conhecia”, relembrou. A conquista também deu início a uma nova etapa. Kelly precisou deixar a casa da família para se mudar para Campinas e estudar em Barão Geraldo. Até então, nunca havia morado sozinha nem tido um quarto só para si, já que dividia o espaço com os irmãos. Para conseguir permanecer na universidade, contou inicialmente com uma bolsa de mérito destinada a estudantes cotistas e, mais tarde, também recebeu auxílio estudantil. Agora, aos 23 anos, Kelly se prepara para colar grau em novembro de 2026 e pretende se especializar na área de oftalmologia. Arquivo pessoal Planos para o futuro Agora, aos 23 anos, Kelly se prepara para colar grau em novembro de 2026 e pretende se especializar na área de oftalmologia. Aos estudante que irão prestar a vestibular da Unicamp neste domingo (18), a jovem lembra da importância de não desistir de sonhar. "Mesmo que você venha de uma escola pública, mesmo que você não tenha todas as privilégios do mundo quando você está se preparando, a gente tem, hoje em dia, um monte de ação social, um monte de ação afirmativa, lembrando que é possível , ajudando você a não deixar de sonhar. Eu vejo muita gente parando de sonhar porque não vê isso e eu acho que você tem que correr sim atrás dos seus sonhos, eu sou prova viva de que é possível ", disse. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região
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