'Não esquece que você tem filho doente': depoimentos revelam que ex-chefes da Voepass teriam ameaçado funcionários para não reportar falhas
Sigilo cai, e processo detalha gestão da Voepass antes da queda em Vinhedo Os depoimentos de ex-funcionários da Voepass à Polícia Federal (PF) revelam que mecânicos e pilotos teriam sofrido ameaças das chefias para não reportar falhas nas aeronaves. Os relatos constam na investigação sobre a queda do avião em Vinhedo (SP) que deixou 62 mortos em agosto de 2024. Em um dos casos, um ex-funcionário relatou à PF que o então gerente de manutenção Juliano Flores Pacheco disse para ele não esquecer que "tem um filho doente". A ameaça teria sido feita após o ex-funcionário se negar a retirar um equipamento antigo para instalar em uma aeronave. Pacheco nega. A sigilo da investigação, que reúne cerca de 80 mil páginas com depoimentos, perícias técnicas e relatórios dos órgãos envolvidos, foi retirado pela Justiça nesta semana. Leia outras reportagens abaixo: Exclusivo: conversa entre comissária e mecânico réu revela preocupação com aviões 21 meses antes do acidente Quem são os 12 réus denunciados pelo desastre aéreo que matou 62 pessoas Relembre acidente aqui com avião da Voepass que deixou 62 mortos Cenipa aponta 'cultura de normalização de desvios' na Voepass VÍDEO: simulação mostra voo da Voepass da decolagem à queda Ameaças de demissão Imagem feita por drone mostra trabalho das equipes de emergência em local da queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), em 10 de agosto de 2024. Carla Carniel/ Reuters O mecânico de manutenção relatou à polícia que Juliano Flores Pacheco ordenava o descumprimento de procedimentos técnicos e fazia intimidações. "Juliano mandava a gente quebrar cadeado das sessões para tirar coisa velha que estava na sessão com cadeado para botar no avião. E a gente falava que não ia fazer, ele gritava, impunha, falava que ia botar na rua, que ia prejudicar. Uma vez ele falou para mim: 'Ah, espera aí, você não esquece que você tem um filho doente, né?'", afirmou o funcionário.", afirmou o ex-funcionário, no depoimento. Em seu interrogatório, o próprio gerente confirmou que pressionava a equipe para acelerar a operação. "Tinha mecânicos que tinha que ter uma atenção assim em cima para a gente fazer rodar. E, de certa forma, tinha que cobrar, e eu cobrava", disse Pacheco. A atitude foi reforçada por um auxiliar de manutenção, que tentou impedir uma decolagem devido a uma bolha no pneu do aeronave e relatou ter sido repreendido pelo gerente. "Ele ligou no meu celular particular, acabando comigo, falando que autoridade que eu tinha para segurar o avião", contou. Pressão em pilotos Imagem aérea mostra destroços do avião da Voepass que caiu em Vinhedo (SP) e matou as 62 pessoas Reprodução/EPTV A cobrança para não paralisar as aeronaves também afetava a cabine de comando. Segundo um copiloto, os chefes de pilotos Raphael Limongi de Figueiredo e Rafael Gimenez Rodrigues orientavam os comandantes a não registrar falhas técnicas nos livros de bordo. Os depoimentos apontam que as chefias ligavam diretamente para os comandantes para forçar a realização dos voos: Um auxiliar presenciou Limongi pressionar um comandante a seguir viagem, mesmo após o piloto afirmar que não decolaria por causa de problemas técnicos. Outro comandante contou ter sido cobrado por Limongi após registrar sete falhas em um avião, sendo questionado pela chefia sobre o motivo dos apontamentos. As ordens para manter os aviões em operação partiam também da alta cúpula da empresa. Um auxiliar de manutenção citou o diretor técnico Eric Cônsoli nos relatos. "A própria diretoria punha muita pressão em cima da manutenção (...) não queria ver avião parado, ela queria avião voando", afirmou à PF. Conversa entre réu e tripulante Vinte e um meses antes do avião da Voepass cair , um dos 12 réus do processo, o mecânico Alex de Souza Leandro, disse em mensagem enviada ao celular da comissária de bordo Rubia Silva de Lima, uma das tripulantes mortas na tragédia aérea, que "esses aviões não cai, pq Deus gosta muito da gente (sic)". O trecho da conversa de 22 de novembro de 2022 extraído pela perícia no celular da comissária, recuperado no local da tragédia, endossa a tese do Ministério Público Federal (MPF) de que a queda do ATR 72-500 em 9 de agosto de 2024 foi "desfecho previsível de um processo continuado de omissões deliberadas". O Núcleo de Inteligência Policial destaca no relatório enviado à Polícia Federal que, ao analisar o conteúdo do celular da comissária, "constatou-se que algumas conversas de Rúbia com colegas de profissão corroboram a tese de descaso da empresa Passaredo com a manutenção das aeronaves e denotam que o conhecimento dessa cultura organizacional se dava em praticamente todos os níveis". Ao todo, 12 pessoas tornaram-se réus e vão responder pelos crimes de atentado contra a segurança do transporte aéreo e sinistro em transporte aéreo, acusados tanto pela queda quanto pelo risco ao qual passageiros e tripulantes foram submetidos nos três voos realizados imediatamente antes do acidente pela mesma aeronave. Em seus depoimentos durante a investigação, Alex de Souza Leandro negou ter praticado ou aceito procedimentos irregulares de manutenção e afirmou que, embora reconheça que havia pressão para agilizar voos e liberar aeronaves, não teria liberado ou presenciado a liberação de aviões sem condições de aeronavegabilidade. O que dizem a Voepass e os citados Justiça torna réus 12 denunciados por queda de avião da Voepass que matou 62 pessoas Em nota, a Voepass informou que "seguirá colaborando com o Poder Judiciário e com as demais autoridades competentes, fornecendo os documentos e as informações que forem solicitadas ao longo do processo dentro dos autos". "Ao longo de mais de três décadas de atuação na aviação brasileira, a VOEPASS manteve a segurança operacional como princípio fundamental, com procedimentos de manutenção, operação e treinamento orientados pela regulamentação aeronáutica e por suas diretrizes internas de segurança e conformidade. A VOEPASS reitera seu respeito às autoridades e sua solidariedade aos familiares das vítimas do voo 2283." Já o advogado Gustavo Defina, que representa Juliano Flores Pacheco, afirmou que o réu nega, de forma categórica, as acusações que lhe são atribuídas, inclusive as supostas determinações de práticas irregulares de manutenção mencionadas. "Os relatos citados foram colhidos na fase de Inquérito, sem a participação da defesa e sem o exercício do contraditório, e, até o presente momento, não foram submetidos ao crivo judicial. A Ação Penal apenas se iniciou. A defesa de Juliano será apresentada e desenvolvida oportunamente no curso da instrução processual, com a produção de todas as provas técnicas e testemunhais necessárias e pertinentes e, será nesse ambiente, perante o Poder Judiciário, que os fatos serão esclarecidos. A defesa confia na Justiça e na demonstração da inocência de Juliano". O advogado Bruno Peregrino, que compõe a defesa do réu Raphael Limongi, afirma que há divergências documentais relevantes na investigação. Além disso, reforça que o próprio MPF e o Juízo já reconheceram a colaboração irrestrita com as investigações. "Raphael inclusive integrou a comissão do CENIPA que investigou o fato, participou da simulação ocorrida na fábrica da aeronave, atuou ativamente na investigação, abriu mão do direito ao silêncio e respondeu a todas as perguntas da PF em seu depoimento (que ele sequer tinha obrigação de ir). Além disso, Raphael ao tomar conhecimento da investigação quando estava no exterior, regressou imediatamente. Tudo isso foi reconhecido tanto pelo MPF quanto pelo Juízo, conforme se viu na recente decisão que revogou todas as medidas cautelares exclusivamente em relação a ele." A EPTV não recebeu retorno dos demais citados. Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 Nelson Almeida/AFP Os denunciados Entre os réus estão integrantes da alta administração da Voepass que ocupavam cargos de direção e chefia na época do acidente. Dois funcionários que, segundo o MPF, tiveram participação direta nos fatos que levaram à queda também respondem pelos crimes. Veja a lista abaixo: Marcos Hiroyuki Sato (despachante de voo, responsável pelo voo 2283) Alex de Souza Leandro (mecânico) William Schmidt Agatz (gerente do Centro de Controle Operacional) Juliano Flores Pacheco (gerente do Centro de Controle de Manutenção) Raphael Limongi de Figueiredo (chefe do Centro de Controle Operacional) Marcel Sarquis Moura (diretor de Operações) Tiago Passucci Morani (inspetor-chefe e gerente de engenharia) Carlos Alberto Costa (diretor de manutenção) Eric Consoli (diretor técnico) Rafael Gimenez Rodrigues (piloto-chefe) David da Costa Faria Neto (diretor de Segurança Operacional) José Luiz Felício Filho (dono da Voepass) Outras quatro pessoas indiciadas pela Polícia Federal firmaram acordos de não persecução penal e, por isso, não foram incluídas na denúncia. Arte mostra quem são os 12 réus após queda do voo 2283 em Vinhedo (SP). Arte/g1 Infográfico - Como era o avião que caiu em Vinhedo Arte g1 Globocop mostra local da queda de avião em área de condomínio em Vinhedo (SP) Reprodução/Tv Globo VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e região
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