'Todas foram cobaias': clínica no Rio é investigada por mortes e mutilações em cirurgias plásticas
Polícia investiga mortes e denúncias em clínica de cirurgias plásticas no RJ
A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga a morte de três mulheres e apura denúncias de pelo menos 30 pacientes vítimas de violência cirúrgica e complicações graves após procedimentos em uma clínica de estética em Laranjeiras, na Zona Sul da capital. Segundo as investigações, alunos de pós-graduação realizavam intervenções no lugar dos médicos responsáveis, deixando marcas permanentes, deformidades e mutilações.
Entre os casos sob apuração está o da técnica de enfermagem Isabely, de 42 anos, que morreu na mesa de operação após sofrer paradas cardíacas durante uma cirurgia plástica no abdômen. "Minha filha saiu toda animada pra fazer essa cirurgia, toda animada. E antes dela entrar pra sala, mãe, já estou indo. Benção, Deus abençoe, filha. Nunca mais ela voltou pra mim, nunca mais", relata a mãe da vítima.
O viúvo de Isabely, Cosme, afirmou que o médico responsável comunicou que a paciente apresentou intercorrências sucessivas durante o procedimento. "Ele falou que teve uma complicação. Que aí ela deu uma parada de oito minutos, depois teve que reanimar, aí deu mais uma parada de dois minutos, depois deu uma outra parada", diz. A família descobriu que o profissional responsável pela anestesia se formou em 2023 e não possuía a especialização exigida por lei.
No mesmo endereço, Jéssica, de 32 anos, morreu após dois meses de internação hospitalar em decorrência de infecção generalizada. O marido, Geneir, afirma que ela retornou ao local insatisfeita com o resultado de intervenções no peito e na barriga. Antes do reparo, o médico sugeriu uma remodelação costal — técnica proibida no Brasil para finalidades estéticas, que busca afinar a cintura dobrando as últimas costelas e apresenta risco de perfuração intestinal.
A complicação perfurou o órgão da paciente. "Aí virou o nosso pesadelo. O médico falava pra mim que tinha que pegar o intestino, limpar, pra lavar. Aí ele lavava de novo", disse o viúvo, relatando que a lavagem cirúrgica ocorreu pelo menos 20 vezes. "Aí quando a gente pensava que aquela operação deu certo, aí tinha que operar ela de novo."
Convênio sob suspeita e atuação de pós-graduandos
O principal atrativo da clínica Celita Toledo era a oferta de cirurgias plásticas a valores mais baixos, com divulgação em redes sociais promovendo diárias de centro de terapia intensiva (CTI) inclusas nos pacotes. O estabelecimento é alvo de investigação policial há cerca de seis meses; em ações recentes, um sócio e um médico peruano sem registro profissional chegaram a ser detidos e liberados após depoimento.
A apuração identificou a existência de convênios entre a unidade e instituições de ensino que oferecem cursos de pós-graduação em cirurgia plástica no Brasil para médicos formados em outros países da América Latina. O foco é confirmar se os estudantes operavam sem supervisão.
"Existir o convênio entre um hospital e uma instituição de ensino é perfeitamente normal. Eles deveriam ser apenas alunos observadores para aprender as técnicas da cirurgia, mas parece que, além disso, eles operavam e atuavam como cirurgiões formados, a revelia da paciente, e o pior de tudo é que os documentos não dizem isso, os documentos apresentados pelo hospital identificam outro médico como se tivesse sido ele o cirurgião", afirma o delegado responsável pelo caso.
Vistorias do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) apontaram ausência de sala de recuperação pós-anestésica, falta de anestesista e uso irregular de pós-graduandos na função obrigatória de cirurgião auxiliar. O conselho instaurou procedimento de interdição contra a clínica, que segue funcionando. A Vigilância Sanitária municipal também notificou a unidade ao flagrar medicamentos vencidos e itens sem esterilização.
A proprietária Celita Toledo negou irregularidades e afirmou que as cirurgias eram conduzidas por profissionais habilitados. "Isso não acontece, não, não concordo. As cirurgias são feitas pelos médicos, que são cirurgiões plásticos, com CRM, com tudo, e acompanhada pelos pós-graduandos", declarou. A empresária disse colaborar com os órgãos públicos: "Eu te digo de certeza que o hospital está aberto, toda a investigação, tudo, tudo, tudo que eu posso fazer para contribuir, eu vou fazer. O hospital faltou com algo? Não, não faltou". Questionada sobre pontos a corrigir, respondeu: "O que precisa melhorar, talvez, seja selecionar o público, talvez seja isso que eu tenho que melhorar".
Complicações, necrose e mutilações
Além dos três óbitos, o inquérito policial reúne denúncias de outras 24 mulheres com sequelas e mutilações. A professora Adriane Oliveira sofreu necrose abdominal e infecção grave após procedimento na região da barriga. "O médico pediu pra eu retornar. Ele olhou e tiraram uns tapes que eles botam na tua barriga, quando tiraram começou a sair pele, a minha pele começou a sair. Ele falou: 'não, é normal'. Passado umas três dias, começou a ficar preta a cirurgia", conta. "Eu estou deformada, eu não tenho barriga, eu não tenho coragem de botar minha barriga pra fora, eu não tenho coragem de me olhar no espelho. Eu olho para mim e não me vejo. E aí falar que é normal isso?"
Outras pacientes relatam assimetrias e suspeitam da presença de múltiplos operadores na mesma cirurgia. Gisele Reis, que retirou glândulas axilares, afirmou que os cortes e as suturas em cada lado do corpo eram completamente divergentes. "A costura parecia que eu estava num açougueiro, num matadouro. E eu tenho certeza absoluta que foram duas pessoas diferentes. Porque uma axila minha tem um corte específico e teve um tipo de ponto específico, e outra axila foi outro corte específico, um outro tipo de ponto. Totalmente diferentes", relata.
Thayze Santos procurou a clínica para mastopexia com prótese e constatou formatos desiguais nas mamas. "Eu estou com um corte muito grande daqui até aqui. E esse seio, ele tá mais redondo e esse daqui tá oval. Aí ele tá totalmente desigual. Erraram. Muito feio. Tá uma coisa horrível", afirma a paciente.
Ela recusou oferta de reparo da clínica: "Começou a aparecer mais e mais casos de que as pessoas estão morrendo, necrosando e tudo mais. Eu estou morrendo de medo de voltar lá para poder refazer".
Familiares e vítimas cobram a interdição imediata do estabelecimento e punição aos envolvidos. "Por isso que eu estou aqui, eu estou pedindo pra alguém fazer alguma coisa, fechar aquela clínica, pra outra mãe não passar o que eu tô passando", pede a mãe de Isabely. Questionada se as pacientes serviram como cobaias durante as intervenções, uma das vítimas resume: "Foram, foram. Todas elas foram cobaias. Todas".
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